quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A sociedade viciada no automóvel

De João A M Santos, no Facebook em DEZ2017:

"Porque é Natal...

A sociedade ocidental, e a portuguesa também, naquilo que nos diz respeito, vive neste momento uma crise de paradigmas de mobilidade devida ao crescente aumento e utilização (sim, são coisas diferentes) do parque automóvel, e dos veículos motorizados de uma forma geral, nos seus centros urbanos. Sem querer fazer a apologia (ou detracção) de qualquer meio de transporte em particular, creio que podemos afirmar que, no caso da sociedade portuguesa, o leque de alternativas de transporte é menor que em outros países europeus. Mesmo que essa limitação esteja no interior de cada um. Basta irmos a Barcelona para verificarmos a quantidade de "scooters" existente relativamente ao número de automóveis, ou ir a qualquer cidade holandesa ou alemã para verificarmos o número de bicicletas que por lá circulam diariamente. Nestes últimos casos, estamos a falar de números que, para os nossos padrões, são astronómicos. Em Amesterdão, por exemplo, onde mais de 60% da população utiliza diariamente a bicicleta, podemos ter um fluxo destas, em certas artérias, que ombreia com o fluxo de veículos na CRIL em Lisboa ou na VCI no Porto. Na Alemanha, mas não só, vemos pessoas já de certa idade (idade para ter juízo, diremos nós), a ir diariamente para o seu local de trabalho de bicicleta: dar aulas numa universidade ou trabalhar num hospital, por exemplo. Em Portugal, salvo algumas excepções, estas situações são inexistentes. Nos grandes centros urbanos, a percentagem de pessoas que usa a bicicleta como meio de transporte primário, ou que se desloca diariamente quatro quilómetros (cerca de quarenta minutos) a pé para ir trabalhar, é, infelizmente, muito reduzido. Mas nem sempre foi assim. A motorização da população durante os anos 60 e 70 do século passado foi galopante em Portugal e, contrariamente ao que aconteceu noutros países europeus, os restantes meios de transporte não conseguiram acompanhar esta tendência e oferecer alternativas. Nos anos 80 e 90, seguiu-se a mesma orientação: acabaram-se com linhas de comboio e alcatroou-se Portugal do Norte ao Sul com auto-estradas. Algumas, manifestamente de pouca utilidade. Ao mesmo tempo, os acessos pedonais, as bicicletas e os transportes públicos não seguiram a mesma tendência de crescimento, sofrendo, em alguns casos e em alguns locais, uma implosão quase total. Com este processo, a sua memória colectiva apagou-se. A geração nascida por volta da segunda guerra mundial foi praticamente a primeira a ser influenciada pelo novo paradigma, e a ser massivamente "encartada" e orientada para a condução de veículos automóveis. Esqueceram rapidamente o hábito da geração anterior de se fazer deslocar a pé, de bicicleta e de comboio, para muito curtas, curtas e longas distâncias respectivamente, e a memória destes meios de locomoção ficou indelevelmente apegada a uma época de privação de meios económicos e de conjunturas sociais adversas. O automóvel surgiu como um sinal de progresso e riqueza e rapidamente se tornou o padrão para a mobilidade dentro e fora das cidades. E assim continuou até chegarmos à situação actual, com evidências de ser cada vez mais incomportável a vários níveis. Recentemente, talvez devido à crise económica e à crescente consciência ecológica, uma muito estreita faixa da população tem vindo a colocar a hipótese de voltar a utilizar meios de transporte mais suaves, mais eficientes do ponto de vista energético, menos poluentes, que promovam uma maior actividade física e que, consequentemente, beneficiem a saúde. A bicicleta é um deles. É tempo talvez das autoridades competentes olharem a sério para este facto e aproveitarem esta disposição que pode não durar muito se não for acarinhada. Muitos esperam apenas que alguém lhes faça ver que existem outras alternativas ou então sentirem que podem ir para o trabalho a quatro ou cinco quilómetros de casa em quinze minutos sem risco de terem um acidente grave. Um sério e ponderado investimento nestes meios de transporte talvez se justifique a médio e a longo prazo, com reflexos na economia, no Sistema Nacional de Saúde e na felicidade colectiva da população. Afinal, apenas devido a acidentes de viação, e segundo dados da ANSR referentes a 2015, morreram nesse ano em Portugal 363 condutores, 84 passageiros e 146 peões. E daí também resultaram 1975 feridos graves. Destes, uma grande percentagem foi de crianças. As "tragédias" são-no pelo enquadramento que se lhes dá, mas estes números equivalem bem a uma mão cheia de atentados terroristas ou a duas ou três quedas de aviões cheios de portugueses apenas durante um ano. Talvez não fosse má ideia pensar nisto como uma oportunidade de fazer alguma coisa e, principalmente, alterar políticas, mentalidades e comportamentos."

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Proposta de redução de sacos de plástico - Wells

"Acabei de comprar uma pequena caixa de comprimidos na Wells. Como sempre, a funcionária colocou a pequena caixa num saco de plástico.​
Trate-se de um xarope de 500g, trate-se de uma caixa de comprimidos de 20g, sempre um saco. Seja algo volumoso ou minúsculo, não importa se a pessoa tem ou não onde guardar (saco de senhora; pasta; bolso; ...), é sempre dado um saco.
Sabemos qual o destino desses sacos mal se chega a casa: na melhor das hipóteses colocado na reciclagem, com frequência no lixo normal e muitas vezes simplesmente largado no ambiente.

Como sabem, um dos grandes problemas que criámos, e que põe em causa a saúde da humanidade (e naturalmente dos restantes organismos vivos), talvez mesmo a sua sobrevivência, é a gigantesca e crescente proliferação de plástico na natureza, grande parte do qual é plástico descartável, nomeadamente sacos.
As farmácias são lugares de promoção da saúde. Gostaria de as ver como parte da solução, e não do problema.

Por isso, venho propor à Wells, como detentora de muitas farmácias, e por isso com um grande impacto neste tema, que

1) Os funcionários, em vez de distribuírem  um saco por cada cada compra por iniciativa própria, sem questionarem o cliente, passem a perguntar sempre ao cliente "Precisa de saco?", e não "Quer saco?"
Naturalmente muitas pessoas, igualmente não alertadas ou desinteressadas do problema, aceitarão sem pensar no assunto, mas outras talvez pensem se precisam mesmo daquele saco e não o aceitem.

2) melhor que a anterior: eliminar totalmente os sacos de plástico. Em vez de distribuírem  um saco de plástico por cada cada compra por iniciativa própria, sem questionarem o cliente, passem a perguntar sempre ao cliente "Precisa de saco?", e , em caso afirmativo, utilizem exclusivamente sacos de papel, sem asas, como já são utilizados em muitos outros estabelecimentos.


Estou certo que qualquer uma das duas medidas teria um impacto global nacional muito positivo, dado o elevado número de pontos de distribuição. Para além do bem estar dos presentes e da saúde da economia, gostaria que os meus filhos tivessem futuro."



Algumas semanas depois, a resposta que nada promete:

"Tivemos conhecimento da sugestão de V. Exa. relativa a “Sacos de plástico” efetuada via Continente Online, na loja Well’s Saúde do Vasco da Gama e informamos que mereceu a nossa melhor atenção.

Antes de mais, agradecemos a sugestão apresentada e lamentamos por apenas agora nos ser possível responder.

Em relação ao assunto que nos expõe, gostaríamos de informar que já encaminhamos esta situação para a respetiva Direção."

O Tejo está a morrer

"O Tejo está a morrer."

Quem vive na zona da grande Lisboa não se apercebe desta realidade. É uma população crescentemente alheada da natureza e da ligação que temos com ela, queiramos ou não. Por maior que seja a seca, ou a escassez de alguns alimentos, as condutas continuam a alimentar o consumo irracional de água, os porta-contentores e camiões mantêm o fluxo de alimentos, do interior de Portugal ou do outro lado do mundo.

O rio ali é essencialmente mar, e o mar não está a secar - ao contrário, o seu nível médio até está a subir. Ao longo dos últimos anos, fruto de investimentos em saneamento e afastamento de indústria poluente, a qualidade a água até terá melhorado muito.
E no entanto quanta responsabilidade, pela quantidade, mas também pela atitude, tem esta imensa população na morte do rio!

Com quando desperdiçamos água, tal como ao lavar a louça com a torneira no máximo durante 20 minutos (para depois a máquina de louça voltar a lavar), ou lavamos dentes ou fazemos a barba com a torneira sempre bem aberta - é que esta água é retirada diretamente da bacia hidrográfica do Tejo e aquela que atiramos esgoto abaixo não passará debaixo das pontes desde o Zêzere até à foz.

Quando desperdiçamos papel, como ao retirar 6 ou 7 folhas de papel para secar uns míseros mililitros de água das mãos - é que este papel é produzido nomeadamente em celuloses nas margens do Tejo, que contribuem para o poluir. Os eucaliptos que alimentam estas máquinas económicas, por sua vez, contribuem eles também para degradar as encostas do sistema hidrográfico do Tejo.

Quando desperdiçamos energia elétrica, estamos a promover o represamento de água nas múltiplas barragens do Tejo e seus afluentes, e a promover a construção de novas. Com menores necessidades de energia, as empresas exploradoras poderiam libertar mais caudal para dar vida ao rio.

Quando compramos vegetais em quantidade suficiente para comer e desperdiçar, só porque temos dinheiro para tal e os preços são baixos, nomeadamente os produzidos nas zonas do sul de Espanha irrigadas com transvases do Tejo, estamos a desviar a água que deveria correr até Portugal. Se comprarmos apenas o que consumirmos, sem desperdício, reduziremos a necessidade de roubar água ao Tejo.



Talvez a culpa da morte do Tejo não seja só d´"ELES." Se calhar, todos somos responsáveis por isso, e todos podemos fazer alguma coisa para inverter a situação.
Mas é tão mais confortável dizer que "ELES" não fazem nada...



https://www.publico.pt/2017/11/19/sociedade/noticia/guerra-da-agua-e-poluicao-no-tejo-espanhol-ameacam-portugal-1793077

https://www.publico.pt/2017/11/19/fotogaleria/o-tejo-esta-a-morrer-em-espanha-379102